terça-feira, 1 de setembro de 2015


Domingo, 13 de agosto de 2006.

O comício

Era apenas um teste, mas nade que preste me veio a ocorrer. Havia a necessidade, algo que diga e se possa convencer. Mentiras, provérbios, frases capciosas e tudo mais que se possa dizer, trazem em si um sonho comum: o da verdade que se esqueceu de acontecer...

Eloquência, persuasão, convencimento, aderência. Belas frases e palavras, magistralmente proferidas, liricamente encenadas, cenicamente – cinicamente? - produzidas, academicamente estudadas, ensaiadas e repetidas, já testadas e conferidas, e que por mim foram ditas, foram ditas e recitadas. Proferidas com tanta emoção e tal comoção causaram que de pé fui aplaudido, o coro das bocas famintas em uníssono meu nome gritava...

Volto para casa satisfeito, o resultado buscado foi obtido, muitos dos presentes foram convencidos, imenso apoio angariado. E já começo a ser tachado, classificado como “o escolhido dos miseráveis”, o pai dos pobres – prostituta dos ricos? -, dos hipossuficientes, dos de cérebro desprovidos, dos de condições – mentais? – reduzidas, dos esquecidos pela vida e que por mim são lembrados, e que para mim tem relevância, um por um, voto por voto, a cada sorriso retribuído velhos sonhos renascidos, outro pecado cometido, nova culpa assumida, mais uma alma iludida que em mim vê a saída...

 
Compunção... Já não sinto mais. Deus meu, me permiti empedernir, tão facilmente consigo iludir, convictamente sei iludir, sinceramente sei mentir, sem conflitos ou grandes transtornos, tantos consigo persuadir. Apenas não aprendi, ou melhor, nesse processo vivido até ao ponto em que me encontro, abri mão de tantas coisas, e a que mais sinto falta, é a divina paz que só a consciência tranquila pode proporcionar aos que vão dormir...