sábado, 26 de março de 2016

Reine

Ela desconhece o que é saciedade. Longe está de saber o que é razão. Veio de limitações e resignações que lhe ofendiam diretamente. Não eram para si, não deveriam ser para si, não aceitaria aquilo para si. Nunca. Merecia mais, muito mais. Sentia-se digna de tudo aquilo lhe era negado, por Deus, pela vida, pela família, pelos pais, pelo pai... Sim, o pai.

Olhava-se no espelho e não via em si nada que lhe diferença-se das outras mortais, era uma garota como qualquer outra, com dois braços, duas mãos, duas pernas, dois olhos, rosto, cabelo, brilho nos olhos, sorriso nos lábios... Então... Por que deveria ser ela a sofredora? Por que caberia a ela a sina do pato feio?

Ela não queria seguir o script, não queria ser coadjuvante do próprio destino. Simplesmente não aceitaria seguir a rotina de finalizar o ensino médio, quem sabe iniciar um curso técnico ou graduação e assim poder galgar uma melhor colocação no mercado de trabalho. Não. Ela não queria isso, ela queria ver o mundo, queria saber que cor era a chuva na Nova Zelândia, o por do sol em Dubai, o entardecer nos Estados Unidos. Qualquer coisa além de seu mundo resumido a parca alimentação, parca vestimenta, baixa qualidade de ensino, baixa qualidade de transporte (sempre público, por sinal), a espera pela refeição gratuitamente cedida (por vezes a primeira do dia), aos parcos amigos (sempre à espreita de motivos para lhe achacar, achincalhar).

Houvera um dia no qual acreditara ser o amor a porta que a retiraria desta vida por demais dolorida, nisto depositara todas as suas forças, todas as suas crenças, todas as suas esperanças, todas as possibilidades. Mas até nisto fora infeliz, como o mais bisonho dos apostadores, não se fez assenhorear das regras, dos blefes, dos encantos e desencantos do jogo no qual ingressava. Não, pobre donzela, seguiu o insano músculo cardíaco que por vezes sentia ser sua bússola, quiçá o norte não fosse seu destino, quiçá a sorte não fosse sua companhia... E apostou todas suas fichas no azarão... Sim, o mais feio, o mais introvertido, o mais antipático, o mais presunçoso, o mais magro, o mais esquálido, o mais démodé, o mais descarnado, o mais mortiço, o do dente quebrado...

Encerraram-se as apostas e agora não havia como regressar, o caminho sempre é para frente, restava-lhe agora fazer com que todos os que praguejavam contra sua aposta pudessem vir a engolir todas as suas palavras ácidas e corrosivas quando o azarão adentrasse aquele colégio de mãos dadas consigo. Assim os dias passaram, assim as semanas passaram, assim os meses passaram, assim passaram-se os anos.

Mudou-se o cenário, mudou-se o público, mudaram-se as coadjuvantes, mudou-se tudo, menos a aposta, a aposta manteve-se, e lá estava ela, Dom Quixote e Sancho Pança(não ouso correlacionar meus personagens aos já tão famosos citados personagens), o azarão e seu fã número 1, a dona do fã-clube de apenas uma pessoa. Aquela que poderia morrer por seu ídolo(ídolo?). Aquela que não merecia sofrer tudo o que já sofrera por esse sujeito desengonçado que lhe despertara o interesse ainda no início de sua lamuriosa vida. Mas sabe como é, no amor e nas apostas nem sempre se ganha.Alguém há de perder e possibilitar o lucro dos ganhadores.

A vida quis assim. A vida (fiel espectador) consegue ler em nós características que nem mesmo nós temos a consciência de possuir, desconhecemos a capacidade de superação até sermos obrigados a superar, desconhecemos nossa força até sermos obrigados a sermos fortes, pensamos saber os limites da dor que poderíamos suportar até o dia que descobrimos que nossas dores podem não ter limites e ainda assim as suportaremos. Somos a eterna expectativa do que podemos ser. Não seria diferente em suas vidas.

Fronteiras e limites não lhe apeteciam, parcelas e partes não lhe preenchiam, frações nunca lhe satisfariam. Ela quer todo, quer inteiro, quer pleno. Ousara lhe dizer que plenitude não há de ser a melhor meta a buscar. Covarde! Respondeu-me sutilmente(na medida do que se poderia classificar de sutileza naquela personalidade fronteiriça).

O destino por sua vez, piegas em demasia, sarcástico por excelência e provocador por natureza. Centelhou (pôs calor)... Tudo o que não poderia, combustível e comburente, que se inflamem mutuamente. Crepitem, ardam, estalem exaurindo-se. Quiçá finde a chama. Quiçá fogo infindo.

 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Persona no grata

Por vezes admitir um erro torna-se responsabilidade mais leve que manter a pose, a arrogância, o orgulho.
Hoje eu quis admitir, quis abandonar o pedestal, abrir as portas e permitir o acesso ao meu eu já tão surrado pelo orgulho que trago em mim.

Hoje eu quis.
Hoje pensei poder passar pelas mágoas que me causaram, pelas mágoas que eu me causei pensando no que poderiam ter feito, dito, consumado.
Hoje elas ainda ardem.

O pior desconhecido é sem dúvida aquele a quem um dia chamamos de amigo.
Hoje todos eles se tornaram desconhecidos.
Hoje todos eles vestiram novos rostos, sorrisos, humores e personalidades.
Já não conheço ninguém.

Ainda busco saber quem pode ter dado o primeiro passo em falso que nos melindrou a ponto de não mais nos reconhecermos.
Reconheço ser trabalho inútil, ou talvez seja de pérfidos resultados, pois acarretaria na minha egoísta paz de espírito por não ter iniciado tudo isto, ou na depressão etílica por ser eu o culpado.

Estou triste.
O coração permanece aflito, o silêncio é corrosivo e eu já nem sei mais no que pensar.
Relembrei aleatoriamente um comentário que me fizeram sobre não perceber as reais intensões de quem me rodeia, lembrei das palavras "sempre quis o que é seu".

Mas não é/era/foi ou será meu.
Ainda assim...
Doeu.
Vou sobreviver.
Vou esquecer.
Vou reorganizar as prioridades, ativar os bloqueios, reduzir os encontros, eliminar as conversas, condená-los ao degredo, ao ostracismo de mim.
Vou viver sozinho...

quarta-feira, 23 de março de 2016

Subúrbio / Cidade

Ela desejava ser despida, não por necessitar ou por volúpia, mas por sentir-se digna disso, não da mesma forma que todas as outras mulheres já desnudadas por ele, mas erigindo-se peculiarmente de um passado nostálgico que nas brincadeiras da vida desaguou no presente.

Esperava poder acompanhar o passeio dos olhos dele por suas curvas sugestivas, quem sabe decifrar o esboço facial repentino que ele certamente faria, ver sua surpresa ser substituída pela torrente caudalosa do desejo denunciada pela ereção que a esta altura não mais poderia ser disfarçada em sua bermuda.

Descobrir todo primitivismo sensorial que as mãos simiescas dele poderiam delatar por sua dificuldade em abrir o sutiã. Esperar o desabar de tal peça que impelida pela gravidade lançaria-se ao solo, sentir a temperatura das palmas de suas mãos que se fartariam em seus seios, precedendo os lábios grossos e sedentos que lhe sugariam e antecipariam a língua em movimentos circulares sobre as aréolas de seus mamilos.

Puxaria a boca dele ao encontro da sua com um gesto brusco valendo-se para isso dos cabelos desgrenhados que lhe ornamentam a cabeça. Saberia exatamente a velocidade, intensidade e compressão com que se deleitaria nos lábios dele, deixaria que demonstrasse todo seu potencial, receberia com humildade os exibicionismos labiais daquele lacaio de seu prazer, quando o ciclo se fechasse e reiniciassem os movimentos de sua boca é que então protagonizaria o que de melhor ele poderia vir a sentir na vida. Já idealizava desprenderem-se momentaneamente as bocas(deixaria claro que o show dele acabara), pressionariam-se as testas propiciando a abertura momentânea dos olhos, sorriria matreira e com um leve floreio no ar iniciaria o espetáculo.

Tinha em sua mente a idealização dos primeiros momentos daquele que seria o mais belo registro de sua memória. Alimentava por meses o platônico desejo contemplando-o da arquibancada de seus sonhos. Sorria-se intimamente ao menor sinal de percepção de sua existência por ele. Quando desvanecia, quando se julgava inexistente na vida do ser ao qual fora prometida, retroalimentava-se argumentando consigo que falta não faz o que nunca se teve.

Falácia! Era a prova viva da insustentabilidade de tal argumento. Bobagem, não há de exigir racionalidade ao ser que ama. Queria acordar-se um dia imbuída de coragem, banhar-se com cuidado e zelo para preparar com aromas o próprio corpo, adrede trabalhado para servi-lo, onde imaginava poder vê-lo saciado. Maquiar-se com uma diva, vestir-se gloriosamente e sair às ruas atraindo para si todos os olhares. Quando por fim o encontrasse, saberia despertar-lhe a iniciativa, colocar-se-ia em situação de vulnerabilidade, como uma presa que deseja ser atacada, mas não por qualquer predador, não por qualquer fera, trazia na pele o molde das presas que desejava. Aqui o degas não aceitaria um impostor.

Tudo isso lhe aflorava a mente no penoso percurso ao trabalho. Alheava-se ao vê-lo, sempre tão enigmático, silencioso, reservado. Como um castelo resguardado pelas muralhas de seu silêncio. Observava-o incansavelmente, à espreita de uma fenda, uma brecha, uma falha na couraça de autismo encimada pelos fones de ouvido que ele usava não lhe permitindo sequer adentrar o universo musical que lhe apetecia. Findo o trajeto, aproximava-se da porta traseira para o desembarque, não sem antes arrematar sua viagem com a última investida de olhares ao feérico ser que ainda não acordara de seu encantamento, então suspirava: um dia ele vai me ver...